Obrigação x Diversão

Obrigação x Diversão 11/NOV - Bianca De Vit Begrow - atua na área da educação, mãe de Letícia e Manuela

Minha filha mais velha tem uma madrinha que é exatamente o que toda criança deveria ter na vida e, especialmente, na infância. Nós, pais, estamos muito focados em educar, disciplinar, não passar vergonha de estar criando um filho mal-educado e desagradável. Mas há de existir na vida de cada criança aquela figura que extrapola um pouco as regras do dia a dia, permite o que normalmente não se pode fazer e que seja sinônimo de diversão, descontração e alegria. Para a minha filha, essa pessoa é a madrinha de batismo, a Dinda, como é carinhosamente chamada. Ela tem o direito indiscutível de fazer coisas que eu, como mãe, não posso me dar o luxo se fazer. Pelo menos não sempre.

Mãe tem essa tarefa cheia de responsabilidade intitulada "educar", que consiste, dentre tantas outras coisas, em estabelecer as regras e fazê-las cumprir, estipular a rotina e segui-la, garantir que os dentes sejam escovados, que as refeições sejam saudáveis, que a higiene esteja em dia e que o tempo de sono seja o recomendado para a faixa etária. Ser mãe tem muitas dessas coisinhas chatas e, ao mesmo tempo, extremamente importantes se o seu objetivo é criar um pequeno ser humano saudável e feliz.

Em contrapartida, ser dinda é ter a diversão garantida, é ser cúmplice nas traquinagens e ser sinônimo de doçura: doçura no jeito de falar e também em ter todos os tipos de doce escondidos na bolsa para presentear. Ser dinda é separar um dia na semana, ou uma tarde ou apenas algumas horinhas para estar plenamente com aquela criança, independentemente de quaisquer outras obrigações e programações. Ter dinda é ansiar por esse momento, perguntar o tempo todo se ela está chegando e pensar em todas as brincadeiras que farão juntas. É saber que, com aquela pessoa especial, você pode relaxar mais, na certeza de que ela irá, literalmente, “passar a mão na sua cabeça”. 

Através dessa figura da dinda, que pode bem ser a avó ou o avô, um tio ou tia, um amigo ou vizinho próximo, enfim, através dessa pessoa, você, mãe ou pai, com o perdão da redundância, se permite permitir ao seu filho: você deixa que ele fique acordado até mais tarde, deixa comer um brigadeiro em plena terça-feira só porque a dinda está na casa hoje. Você se alegra porque sabe que seu filho ou filha terá alguém como cúmplice que é de sua plena confiança. Você ajuda sua criança a arrumar a mochilinha para passar a primeira noite longe de você... na casa da dinda, claro! E se orgulha porque "seu bebê" está crescendo e ficando cada vez mais independente, afinal, você o está educando para isso, certo?

A dinda ainda tem uma importante missão, que vai além daquela que é dada no ritual batismo. Sabemos que essa função deve ser dada a alguém que possa assumir o lugar da mãe, caso você venha a faltar. Na prática, não é bem assim que funciona e, felizmente, pouco se precisa apelar a ela. Mas não, eu me refiro a outra missão: a de lembrar a você, mãe ou pai, que você também pode fazer as vezes de dinda para seu filho. Você pode e deve abrir uma brecha na rotina, nas responsabilidades, nas obrigações e naquelas chatices todas só para curtir seu filho. Curtir efetivamente, sem estar com celular na mão ou enquanto trabalha ou enquanto faz uma refeição. Parar tudo e brincar junto, montar um quebra-cabeça, melar-se com tinta, permitir-se ficar mais tempo acordado, lendo histórias juntos. Preparar aquele brigadeiro sem razão específica nenhuma, só porque, às vezes, pode.

Não se preocupe, você não irá arruinar todo o árduo trabalho de educar seu filho por causa dessas pequenas delícias da vida. A maternidade/paternidade vale muito mais a pena quando sabemos assumir na quantidade e momento certos o papel daquela dinda super legal, daquele vovô que enche de mimos ou da tia brincalhona. Não permita que eles sejam os únicos a aproveitarem toda a diversão que é ter uma criança em casa.

Por Bianca de Vit Begrow

Foto: Carol Vianna

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Bianca De Vit Begrow - atua na área da educação, mãe de Letícia e Manuela

Diretora de escola da rede privada em Salvador - BA, há 17 anos atuando na Educação, mãe de Letícia e Manuela

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