O Alzheimer trouxe minha mãe de volta pra mim! A descoberta e aceitação da doença.

O Alzheimer trouxe minha mãe de volta pra mim! A descoberta e aceitação da doença. 6/DEZ - Andreia Riff – mulher, mãe, esposa, advogada, escreve sobre as mudanças de papeis que a vida nós impõe.

O Alzheimer trouxe minha mãe de volta pra mim! 

Esta afirmativa pode parecer meio forte, macabra, um tanto quanto assustadora, mas é a pura verdade, a minha verdade e a de minha mãe. 

Tínhamos uma relação tipo amor e ódio, onde por alguns dias estávamos de bem e nos outros, de mal. Assim era eu e minha mãe. Duas mulheres metidas a sabichonas, divertidas e altamente debochadas.

Minha mãe sempre foi um mulher de personalidade forte, mandona e tudo tinha de ser do jeitinho que ela queria. Uma mulher linda, cheia de qualidade e virtudes, sempre alegre, sorridente, brincalhona, tinha um humor ácido e muito inteligente, que contagiava a todos ao seu redor. Na ponta da língua sempre trazia uma resposta pronta e alguns jargões do tipo:

- Nunca vou precisar de nada e de ninguém !

- Tudo azul bobão ! 

- Fui ! Sem destino e não sei qdo volto !

Ahhh minha mãe era um barato! Tive uma infância muito feliz e agitada, pois a " Furacão" apelido que recebeu, era realmente um tsunami ambulante. Onde chegava já tascava uma intriga contraditória e polêmica e criava uma quizumba comigo ou quem estivesse por perto. E num piscar de olhos, ia embora olimpicamente, rindo ou chorando,  virando as costas e pegando a sua bolsa mandava o clássico jargão: - Fui bobão ! Por um bom tempo pensei que era bipolar ou totalmente desparafusada. Quantas palavras duras e dolorosas joguei em cima da minha mãe e ela em mim. Meu Deus quanta falta de entendimento! 

Acreditam que ela se escondida de mim dentro de uma loja de tecidos, só pra me ver desesperada a sua procura? Eu também não era flor que se cheirasse, já nasci dando muitooo trabalho, desde o parto onde ela quase morreu. Nasci de fórceps e já no berçário recebi uma faixa escrita : MHB - Menina Hiperativa do Balacobaco ! Tadinha da minha mãe, com 21 anos teve de se virar nos 30 ou melhor nos 1.500 metros rasos diários, que a fazia correr atrás de mim.

E assim foi minha infância e adolescência de uma filha única de uma Furacão, uma grande parceria, intensa e cheia de altos e baixos. Até eu me casar éramos muito parceiras, mesmo com este temperamento mega hiper difícil, ela sempre esteve ao meu lado, me ajudando em tudo, deixando muitas vezes de comprar algo para ela, para me mimar. 

Com o andar da carruagem, eu me casei e fui morar longe dela e de meu pai e assim, comecei a notar mudanças no seu comportamento que já oscilava. Hoje acredito que tenha sentido um pouco de ciúmes da minha empatia com minha sogra e como sempre fui muito independente, ela se sentiu só. 

Vieram as perdas, menopausa e minha mãe se manteve na postura de saber se virar sozinha, não pediu SOCORRO, se isolou e, por quase 10 anos se tornou vegetariana e não fazendo a reposição necessária de vitaminas, proteínas e tudo que nosso organismo necessita. Foi se autoflagelando aos poucos, tirando tudo que lhe dava prazer. Sofreu muito calada. E ai? E ai meu povo, a doença se instalou de uma forma tão galopante, tão rápida que as mudanças foram nítidas e notadas por todos. Com 38 quilos, não queria mais comer, não sabia qual conta pagou, como digitar sua senha no banco, desenvolveu toque e alguns surtos psicóticos com mais frequência.

Onde eu estava que não percebi tudo isto? 

Muitos podem até fazer esta pergunta. Eu estava ao lado dela o tempo todo, apenas esperando que me pedisse AJUDA. Nunca consegui convencê-la de nada nesta vida, nunca acreditou que eu era capaz de resolver algo, pois a última palavra era sempre a dela. Um SIM ou um NÃOOOO e ponto final, já estava sacramentada a sua decisão.

Sei que tinha muito orgulho de mim e hoje compreendo melhor, que esta era a forma que sabia de expressar seu amor, que  foi assim que aprendeu, dando ordens, não ouvindo, achando que por ser a MÃE tinha uma hierarquia superior e eu tinha de obedecê-la. Nunca se utilizou de agressões físicas, nunca me bateu, apenas mantinha uma postura de “ dona da bagaça toda " e não me contradiz .

Entrei em ação e ela veio morar comigo e minha família, sem reclamar ou titubear, estava muito indefesa, no fundo estava consciente que algo já não estava dando mais certo como antes.

Começamos assim, juntas, unidas a fazer as pesquisas. Eita foi uma via crucis! Geriatras, inúmeros exames, psiquiatra e cada dia era um passo a frente e dois atrás. Uma nova história iniciava para estas duas.

Lembro que um dia depois de uma briga séria com minha mãe, entrei numa igreja e falei seriamente com Deus. Estava chorando e olhei para a imagem e falei: 

- Olha só, não vou mais me esforçar e me desdobrar para tentar entender porque minha mãe não me ama, porque age desta forma comigo, porque não gosta da minha companhia e por que brigamos tanto...Por que, por que? Quer saber...Esta nas suas mãos ok?

E assim....Um ou todos os Anjos Arcanjos ouviram e disseram: Senta e espera queridinha...Vai ver o que vem pela frente...Opsss! 

Minha mãe veio pra mim, não como minha mãe e sim como minha filha, trazida pelas mãos do Alzheimer e benevolência de Deus. Desnecessário me estender e descrever que doença é esta, pois todos nós sabemos que é a doença do século, que é uma doença em que toda a família FICA DOENTE. 

Ela é a forma mais comum de demência. Não existe cura para esta doença, a qual se agrava progressivamente, até levar à morte.  A doença é geralmente diagnosticada em pessoas com idade superior a 65 anos, e com minha mãe não foi diferente, já havia sinalizado mais cedo e acredito que se tivesse realizado alguns exames específicos, digo específicos, teríamos diagnosticado bem mais cedo.

Fico apreensiva e acompanho o progresso da ciência, vivo conversando com geriatras, cuidadoras, enfermeiras, dou meus Google e a pouco li que existe no mundo 26,6 milhões de pessoas com Alzheimer e em 2050 prevê-se que afete 1 em cada 85 pessoas à escala mundial. Mais peraí....Sou uma mulher muito otimista e tenho visto remédios e mudanças de hábitos sejam físicos e alimentares que podem retardar a quem são propensos a esta doença. Estou na torcida e vivo trocando de figurinhas com amigas(os) que passam por este problema e vejo que as histórias são tão sofridas e trabalhosas, sei que muitas não tem esta conotação que estou dando. Cada caso um caso que merece todo amor e respeito do mundo. 

No meu caso, voltei a amar minha mãe, resgatamos o nosso AMOR. Hoje sou outra FILHA e ela é outra MÃE. Temos vivenciado momentos incríveis de muito aprendizado, de papos cabeça, de DR’s cascudas e divertidas, de pedir perdão, de se perdoar, de curar feridas e de muitas risadas, tendo a certeza de que a vida nos pregou uma peça e tanto...

Vou continuar a escrever aqui momentos fantásticos que tenho tido com ela, onde está morando hoje, com quem convive, os avanços da medicação nova e como estamos enfrentando esta nossa aliada, esta nossa vilã, chamada Alzheimer .

Meu filho escreveu pra mim, num dia em que me sentia culpada e chorava por sentir falta dela, falta de nós:

"Qual é o tamanho do seu amor? Cada um guarda dentro de si algo. Algo tão especial, mas tão especial, que vem do céu. Qual é a sua capacidade de amar? Será, que a dor de uma perda, revela o íntimo que a muito se escondeu? Quem pode entender os próprios erros? O amor não erra, não é erro. É melodia que percorre pelo rio chamado sabedoria. A sabedoria do amar, relevo da cidade santa, no amor encontra-se o melhor. Aquele que vem do alto traz consigo a verdadeira capacidade de amar. Seja assim na terra como no céu. Amém." ( JP Riff).

Por Andreia Riff
O conteúdo da materia é de responsabilidade do colunista.

 

 
Andreia Riff – mulher, mãe, esposa, advogada, escreve sobre as mudanças de papeis que a vida nós impõe.

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