O ÚLTIMO VOO

O ÚLTIMO VOO 24/FEV - Andreia Riff – mulher, mãe, esposa, advogada, escreve sobre as mudanças de papeis que a vida nós impõe.

O ÚLTIMO VOO
Nunca desista de você!
O seu futuro pode e deve ser diferente!

Não, eu não tenho mais vontade de chorar, porque acredito que tudo tem, teve e terá um propósito, que aos nossos olhos, serão eternamente invisíveis.

Quisera eu poder enxergar lá na frente, como uma moleca que sempre fui, subir numa árvore, aquela "mais maior de grande " grandinha, que de tão alta que é, encosta nas nuvens e cutuca os pés de São Pedro. Muito soberana, pomposa e centenária. Ahhh como ela é forte e como consegue me segurar e me abraçar sem me tocar. Vou subir lá no último galho e espichar o meu pescoço para dar uma olhadinha no meu futuro ... O Meu Fim! 

Vixe Maria, como será o meu futuro e como será que estarei fisicamente? Claro que para uma mulher taurina e vaidosa como eu, não seria está a minha segunda curiosidade... E daí, posteriormente, saber como cheguei lá adiante, se estou ainda consciente, torta, capenga, falando, com alguns centímetros a menos, usando bengala ou cadeira de rodas... Eita, se perder muitos centímetros com este tamanho todo que tenho, virei certamente uma anãzinha de perninhas cotó... Tudo certo o que vale é que ainda estarei VIVA!

O que não me faltará é a curiosidade para saber quem ainda estará ao meu lado, quem ainda permaneceu e lutou até o meu fim. Será que foi por falta de opção, por falta de condição, por comodidade, por carma, por amor ou simplesmente por motivos extra curriculares, ou seja, simplesmente estava escrito nas estrelas. 

Sei não... Lá de cima desta árvore hoje, neste exato momento gostaria de me ver realizada e feliz com uma cara leve, livre e solta, consciente de que passei por momentos difíceis, porém EU VENCI e venci todas as adversidades da vida. Como vinho, fiquei muito melhor!

Cheguei firme e forte, cheguei sem ter cometido nenhum crime que tenha ferido fisicamente, moralmente e espiritualidade alguma pessoa. Sei que isto é impossível porque minha língua sempre foi muito afiada e acredito que devemos falar, questionar sem magoar. 

Me veio minha mãe no pensamento, pois sempre falou tudo que pensava ou quase tudo e hoje parou de andar, poucas palavras pronuncia e está em outro mundo que só ela tem a compreensão. Como dói ver aquela mulher "furacão" se tornar este fiozinho de fogo indefeso, carente, solitário, que não ascende mais.

No entanto, preciso e quero, lá de cima sentir um ventinho fraco, uma brisa  que me reporte ao cheiro das ondas do mar, do tempo em que elas me faziam companhia, onde contava para minha mãe a história das gaivotas. Um dia na praia, sentada ao seu lado eu contei pra ela:

- Mãe sabe por que as gaivotas voam em formato de V ?

Ela me respondeu que não sabia.

Eu disse:

- É porque elas se revezam na liderança, ou seja, quando estão cansadas, doentes e velhinhas, se estão na frente, vão lá pra trás e as outras toma a posição, pois assim voam sempre juntas, não se perdem. Não é bacana isto? Senso de união...

Minha mãe me olhou firme e respondeu :

- Ah Andreia que mentira! Como você é mentirosa...

Desse dia em diante minha mãe quando via as gaivotas no céu azul sobre a Praia do Rio de Janeiro, apontava e tentava me contar, do jeito dela, a mesma história que lhe havia contado, como se fosse ela que estivesse me revelando tal fato de primeira mão. Eu ouvia calada, com total atenção e me emocionava, pois na verdade ela acreditou na minha história, mais não queria dar o braço a torcer de que não sabia e disse que eu era mentirosa.

Subindo mais um pouco nesta linda árvore, posso ouvir e ver minhas amigas gaivotas e sentir a presença da minha mãe, sua voz me chamando de mentirosa e sua risada mais debochada que existia. Quem sabe fechando os olhos possa um dia voar com você minha mãe, te libertar deste corpo e desta mente que agora, pertence ao Sr. Alzheimer? Voaremos sem asas! Não precisamos delas.

Por um bom e longo tempo quero ficar me olhando, analisando e tenho certeza que vou ri muito de mim, de como fiquei e de quanto tempo perdi por ter dado tanta importância à assuntos e situações que só me ajudaram a adoecer, a me entristecer, a me desanimar e a me entregar a velhice. 

Será? Olhando melhor e olhando para minha mãe, o que ela foi e o que ela é, vejo que dei um novo rumo a minha vida e que também sai das cinzas e virei uma linda Águia com penas novas e unhas feitas. Sim, a história pode ser modificada, não podemos nos entregar e achar que a história vai se repetir. Precisamos quebrar e modificar atos, gestos, atitudes, pensamentos e comportamentos negativos que nos prenderão esta realidade que não é a minha. Que só serviu como lição para mudar a rota desta viagem.

Como um filme que assistimos e tiramos sempre algumas lições do "bom viver", vou olhar pra mim e balançar a cabeça de forma negativa ao “meRmo" tempo que confirmarei que tudo valeu a pena. Tudo uma "ova", quase tudo, pois nas nossas escolhas, assumimos erros e acertos.

Tentarei descer da arvorona, mais não preciso mais descer, dali “meRmo” baterei minhas enormes asas, arregalarei meus imensos olhos e voarei livre e feliz!

Ahhhh Ahhhh Ahhhh!

 

Por Andreia Riff

O conteúdo desta materia é de responsabilidade do colunista.

 

 
Andreia Riff – mulher, mãe, esposa, advogada, escreve sobre as mudanças de papeis que a vida nós impõe.

Andreia Riff – mulher, mãe, esposa, advogada, escreve sobre as mudanças de papeis que a vida nós impõe.

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